UTMB – OCC por Lúcia Magalhães

Data da postagem:

UTMB – OCC por Lúcia Magalhães

DATA DA POSTAGEM: 05/08/2020

            Desde 2015, quando conheci a grande atleta e amiga Cyntia Terra, passei a ouvir muito sobre o principal circuito de trai running no mundo, o UTMB – Ultra Trail du Mont Blanc. A Cyntia já havia participado em diversas provas do circuito, inclusive com grandes resultados. O UTMB é composto por cinco distâncias principais, sendo os 170 km a prova principal e mais desejada do circuito. Na época ainda não tinha muita experiência em provas acima de 50 km, então resolvi que tentaria fazer a prova mais curta das principais, o OCC com 56 km e 3.500m de ganho, buscando completá-la na melhor performance possível.

            Para participar de qualquer uma das provas do circuito você precisa juntar pontos de qualificação, quanto mais longa a prova escolhida maior a pontuação exigida. Esses pontos são somados ao completar provas ligadas ao ITRA – International Trail Running Association. Depois de alcançar a pontuação necessária você deve passar por um sorteio, podendo ser selecionado para realizar a inscrição ou deverá aguardar pelo sorteio novamente no próximo ano. Também é possível participar da prova caso você tenha uma pontuação considerada de elite, para isso é necessário ter uma performance muito boa nas provas qualificatórias, nesta situação é possível realizar a inscrição diretamente sem passar pelo sorteio, basta possuir os pontos de prova e o score de elite.

            Minha primeira tentativa foi em 2017, ano em que tive a melhor performance nas provas nacionais até então. Eu já tinha a pontuação de prova e acreditava ser possível atingir a pontuação para escapar do sorteio, mas não aconteceu. Fui para o sorteio e infelizmente não fui selecionada.

O ano de 2018 também foi um ótimo ano, ganhei algumas provas no Brasil e participei de duas provas na Itália, o que me rendeu uma boa pontuação e puxou bem o meu score, só que ainda assim me faltaram alguns pontos para conseguir a inscrição diretamente. Tive que passar novamente pelo sorteio, só que desta vez fui aceita para a prova.

            O ano de 2019 foi muito puxado com relação ao treinamento, fiz minha primeira prova acima de 100 km e fui convocada para participar do mundial de trail running em Portugal. Foi um primeiro semestre incrível, cheio de desafios e aprendizados. Em agosto fui à França para participar do UTMB. Cheguei em Chamonix três semanas antes da prova, o que me possibilitou explorar bem as trilhas e montanhas da região. Tive a oportunidade de percorrer os últimos 20 km da prova, o que me ajudou muito a conhecer o tipo de terreno que enfrentaria, subidas e descidas muito longas que podem quebrar até o mais experiente atleta caso erre na dosagem de seu esforço. Chamonix é uma cidade que respira o esporte outdoor, em todas as épocas do ano é possível encontrar atletas amadores e profissionais se testando nas altas montanhas da região.

            Eu não tinha muita ideia da minha possível colocação na prova, mas tinha muito claro o tempo que poderia completar caso ocorresse tudo bem ao longo dela. A prova estava com um start list com atletas de alto nível mundial na distância e com experiência no circuito. Sendo novata na área, mas bem treinada, resolvi fazer a minha prova mas sem facilitar para nenhuma concorrente e brigando pro cada posição todo o tempo.

            A largada foi intensa, corri bem forte por alguns quilômetros mas logo estabilizei minha velocidade e mantive a percepção de esforço sabendo que havia muita prova pela frente ainda. Percebi que estava entre um grupo de atletas com um nível parecido ao meu e daí para frente foram várias disputas com meninas de todo mundo. Fui bem até o PC Vallorcine, onde senti uma queda forte no meu ânimo e percebi que deveria fazer uma breve recuperação para não comprometer a prova toda. Me alimentei e me hidratei bem, sai andando do PC e logo consegui intercalar um leve trote com uma caminhada rápida. Foi quando encontrei outra menina que aparentemente estava ainda mais cansada do que eu, consegui renovar as forças e a deixei para trás.

            No PC seguinte, encontrei com o Cesar, o que me deixou com mais energia e animada para encarar a última grande subida da prova. Subi bem forte e alcancei mais uma garota antes mesmo de chegar ao último PC, onde virei um copo de Coca e sai o mais rapidamente para a última descida e então atingir a meta de chegada. Chegando em Chamonix, fui recebida por brasileiros gritando meu nome e vibrando com minha chegada, mais a frente vi meu amigo Arthur que me acompanhou nos últimos metros até a linha de chegada. Quando cruzei o pórtico em 12ª lembrei de tudo que passei para chegar até ali e me senti muito feliz e agradecida a Deus por conseguir superar todas etapas.

            Fiquei extremamente feliz e satisfeita com meu resultado, mas com um certo gostinho de quero mais, sabendo que é possível estar entre as 10 primeiras em uma próxima oportunidade. Depois de todo esforço, desfrutamos do evento, dos vinhos e após se alimentar bem estava preparada para a aventura seguinte que seria tentar subir o Mont Blanc, mas essa história ficará para outra oportunidade.