Super(Ação)
Notícias e Reportagens
04 de julho de 2017

Por: Douglas Couto


Mudar de vida ou dar sentido a ela não é uma tarefa que eu considere fácil, mas sim uma tarefa que eu considere possível. A capacidade está dentro de nós, basta que o gatilho seja disparado, para que possamos dar os primeiros passos.

Minha história com a corrida começou há pouco tempo, eu pesava em média 120 kg e nunca pensava que seria possível correr uma distância sem parar. Eu achava que a vida era uma garrafa de 2 litros de refrigerante e 2 coxinhas de frango com catupiry, tinha certeza que os prazeres da vida estavam em comida, comida errada. E errado não era a comida, e sim eu. Demorei muito a perceber que estava fazendo mal a mim mesmo. Tive que sair daquela zona de conforto regada a coisas que não nos fazem bem. E como foi difícil, pensei mil vezes em desistir, e abrir um pacote de bolacha, e fiz várias vezes, e depois chorava me achando a pior pessoa do mundo, que não conseguiria, e também me questionava: por que os outros podem comer essas coisas e não engordam?... foi uma fase muito difícil da minha vida, onde tive que abrir mão de estar com meus amigos, pois a vontade de comer nem sempre era controlável e esse fato me deprimia muito. Não me conformava em ter que comer apenas o que a nutricionista recomendou, mas com muita dificuldade e tropeços consegui ir me adaptando a novas rotinas, acho que o fato de cursar Psicologia me ajudou um pouco a manter o foco. E foi depois do terceiro mês de reeducação alimentar que tentei começar a correr. E como foi difícil, pesando mais de 110 kg, não existe joelho que aguente. Não conseguia correr nem 100 m sem chorar e pensar em desistir, mas a vontade de vencer e de me superar já estava plantada dentro de mim. A cada treino eu me sentia melhor no final e sabia que no fim eu mudaria e sairia daquela vida, que não considerava mais aceitável.

Com o passar dos meses, sentindo muitas dores, parei de correr e fui fazer spinning, pois meus joelhos não estavam aguentando tanto peso e tive que mudar de esporte. Continuei com a reeducação e consegui emagrecer 20 kg em sete meses, e já não via a hora de calçar um tênis e sair correndo. Foi quando me arrisquei novamente às corridas, comecei devagar, corria e parava, caminhava, e a vontade de conseguir completar 5 km era maior que qualquer dor. Ao final de 3 meses já estava conseguindo completar meus primeiros 5 km correndo e havia perdido mais 10 kg. A corrida foi tão satisfatória e gratificante que já fazia parte de mim. Continuei correndo, melhorando meus tempos e cada vez mais me sentindo melhor. A sensação de conseguir completar, de vencer seu objetivo é melhor do que qualquer coxinha com refrigerante.  Após quatro meses consegui emagrecer mais 10 kg e correr já era uma tarefa mais fácil. Havia perdido 40 kg em 14 meses, e a tarefa agora era manter, e não parecia difícil, me considerava no caminho.

No começo de 2015 minha mãe ficou doente, acabei me afastando da corrida e de alguns hábitos saudáveis e em 2015 mesmo ela acabou nos deixando, e também deixou um vazio dentro de mim. E eu me via com uma tristeza muito forte, sem vontade de correr, malhar ou fazer qualquer atividade física, mesmo sabendo que essa não era a melhor opção.

Fiquei alguns meses sem correr e sem sorrir. Em um desses dias em que fazer nada era a melhor opção, resolvi sair pra correr sozinho, sem celular, sem companhia, apenas correr. Estava em Bom Despacho e fui correr em estradas de terra num fim de tarde, estava um dia bonito e ventava muito. Já estava muito distante, não tinha muita ideia da distancia, não havia levado nada para marcar os km, e estava pensando o quão sozinho eu estava daqui pra frente e o quanto era ruim não contar mais com presença de minha mãe, e foi no meio dessa corrida e esse momento de aperto no peito que senti uma sensação de paz tão grande. Parei para respirar e sentir a natureza, aquilo, aquele momento mudaria minha vida, tive a certeza que o fato de estar em contato com a natureza, onde não existia nenhum barulho, me fez estar mais perto de minha mãe e apaixonar muito pelo trail run, cheguei em casa chorando muito, mas de felicidade, e não via a hora de sentir aquela sensação novamente. Nos outros dias, saí de casa para fazer o mesmo e aquela sensação me fazia e faz muito bem, o prazer em correr e estar mais perto de quem amamos, isso sim era a essência da vida. E foi depois desse dia que eu tive certeza de que nunca mais iria deixar de correr. A alegria estava de volta e tenho certeza que quando estamos correndo, seja no asfalto, nas trilhas, estamos mais perto das pessoas que amamos, estamos em contatos com nós mesmos. E esse sentimento é único.

Esse foi meu inicio no trail run. Tenho a consciência de que está apenas começando e muita coisa ainda está por vir. Nesse fim de semana, completei uma prova que almejava muito, o KTR Serra Fina. Foi único, foi maravilhoso. A sensação de estar no alto e mais perto de todos os sentimentos bons foi inexplicável. Ainda procuro palavras para descrever como foi único esse sentimento. A subida foi muito dura, não sei se estava preparado pra tanta dificuldade, mas tenho certeza que a vontade de vencer era maior e superou toda dificuldade. No fim, a vista compensou toda gota de suor.

A super ação está dentro de cada um de nós, basta correr atrás. Temos a felicidade de acordar todos os dias e nos superar, nos reinventar e ir atrás de nossos propósitos, nossos sorrisos.

Muitas pessoas falam que sou viciado em corrida, não me considero um viciado em corrida, me considero um viciado em sorrir, em estar perto da natureza, em me sentir bem e estar mais perto de quem eu amo, se a corrida me traz isso tudo, é apenas uma consequência.