Brasil no Topo da Patagônia Run
Go On Outdoor Team
10 de maio de 2017

Este ano a Patagônia Run, famoso evento de corrida em montanha, passou a fazer parte do Circuito Mundial de Ultra trail (UTWT).

Muitos brasileiros participam deste evento todos os anos e já tivemos grandes nomes competindo por lá, como Giliard Pinheiro (vice-campeão 42km em 2015), Manuel Lago (3º geral nos 120km em 2015), Alexandre Manzan (campeão 21km em 2015), Rafael Sodré (Vice-campeão 70km em 2016), Edicarlos (3º geral nos 10km em 2016), Rafael Campos (Vice-campeão 70km em 2015), Carlos Rubi (3º geral nos 100km em 2017) e Diego Penazzolo (Vice-campeão 125km em 2017).

Muitos pódios e até um primeiro lugar com Manzan nos 21km, mas ainda não tínhamos conseguido um primeiro lugar numa distância longa. Em 2017 foi lançada a distância de 125km e tivemos alguns brasileiros correndo por lá, como Carlos Botelho, atleta da Go On Outdoor Team/JVM Trail Run. Carlos já havia vencido os 100km da Indomit Costa da Esmeralda e vem se especializando em provas com este perfil.

Conversamos com Carlos e com seu treinador José Virgínio de Morais para saber um pouco de sua trajetória e expectativas para o resto da temporada.


Go On: Porque correr os 125km da Patagônia Run?

"A ideia de correr essa prova veio na noite do primeiro dia do desafio das serras em setembro do ano passado onde três amigos comentaram sobre essa prova e topei na hora, pois há muito sonhava em conhecer a região da patagônia, e essa prova seria ideal pois era muito bem recomendada por todos que já haviam feito ela."

Go On: Em sua preparação, você conta com um dos melhores treinadores do Brasil, especialista em corrida em montanha, acredita que este seja o diferencial para o seu sucesso não só na patagônia, mas em seus recentes resultados?

"Sim, sem nenhuma duvida! Gosto muito do trabalho do Virgínio, pois além de um excelente treinador ele também é um dos melhores atletas do país. E como ele já esta no trail há muito tempo ele sabe exatamente o que devo fazer para chegar bem preparado em todos meus desafios."

Go On: Sabemos que para chegar na frente, não basta treinar o corpo, mas tem que ter um psicológico forte, ter a alimentação bem alinhada, equipamentos que te passem confiança e um objetivo bem traçado de prova; você trabalha todos estes pontos? Testa equipamentos e alimentação e monta sua estratégia de prova ou parte pro tudo ou nada?

"Sim, para chegar ao ponto ideal para uma competição de longa distância é preciso muito trabalho árduo, é primordial o acompanhamento de um nutricionista do esporte para que a corrida não se transforme em algo prejudicial ao corpo e a saúde. Deixar para testar equipamentos em dia de prova é muito arriscado, então treino muito com os equipamentos que utilizo em competições para conhecer cada bolso da mochila e funcionalidades de outros assessórios. A minha alimentação e suplementação é basicamente toda definida pela minha nutricionista, faço apenas pequenos ajustes ( acrescento muito chocolate hehe ). Passo meses estudando a prova, sempre deixo o perfil altimétrico da prova e resultados anteriores em um local que vejo toda as manhãs quando acordo, e assim que a organização libera o manual do atleta com postos de controle, divido a prova em provas menores ( iniciando no PC anterior e terminando no PC seguinte ) e com os dados sobre o tipo de terreno e dificuldades técnicas do percurso calculo quanto tempo irei demorar para finalizar todas as mini corridas, assim consigo saber exatamente o que levar na mochila e o que deixar em possíveis drop bags e minha mochila dificilmente fica com excesso de peso."

Go On: Como foi a evolução da prova, ritmo foi forte, sofreu com pressão dos outros atletas, qual foi a maior dificuldade do percurso?

"Eu larguei no pelotão do meio, mas em pouco tempo os corredores foram dispersando e busquei o pelotão da frente que era composto por 6 atletas, dentre eles o Trecamam e o Iazaldir, o começo da prova era em um estradão com uma leve subida, nos primeiros kms ainda não tinha encaixado a respiração e a cabeça no ritmo forte proposto por eles, mas em alguns minutos consegui e fomos. Após o primeiro PC dois argentinos abriram um pouco em uma subida de Single Track, e os segui com outros dois corredores mantendo os que estavam na frente em uma distância confortável e seguimos assim até o segundo PC, ali parei para abastecer o squeeze e me informaram que eu era o primeiro dos 125km à passar ali ( até então eu não sabia ), assim que me informaram eu peguei meu squeeze e sai rasgando, pois havia sofrido um pouco para acompanhar os argentinos nas primeiras subidas e achei melhor não perder tempo, a partir desse PC ( km 20 ) até o fim da prova eu corri sozinho, mas como eu não tinha visto nenhum corredor dos 125 eu não sabia há que distância o segundo estava de mim, mas por segurança coloquei em minha cabeça que eles estavam perto, coloquei e ninguém tirou da minha cabeça, corri a madrugada inteira em um ritmo muito bom e qualquer luzinha que eu via em cima das montanhas eu apertava ainda mais o passo, para ter uma ideia aproximadamente no km 78 ( na região do lago e logo após a descida do segundo cume ) eu avistei algumas headlamps na montanha e corri os até o PC do km 98 mantendo um ritmo de 4:30min/km ( nas descidas e partes mais planas ), como nenhum staff sabia me informar (ou não entendiam meu portunhol ) sobre os outros corredores eu segui assim até o final. Pra mim a maior dificuldade foram os charcos que peguei de madrugada, cheguei a correr um tempo sem sentir meus pés, e hoje estou sem 3 unhas graças à esses charcos."

Go On: Nível técnico da prova.

"Essa prova tem todos os tipos de terrenos, como subidas muito ingremes com terra fofa, descidas insanas, trilhas técnicas, muito charco e travessia, milhares de troncos, mas são bem distribuidos ao longo dos 125km e é uma prova que se corre quase o tempo todo. Tem um nivel técnico bem divertido."

Go On: Qual o perfil do atleta para fazer os 125km da Patagônia Run e se dar bem?

"Para se dar bem nos 125km da Patagônia Run ou em qualquer outra corrida longa o atleta só precisa realmente gostar de estar ali, precisa gostar mais de correr do que da cama no sábado de manhã, e precisa estar disposto a dedicar tempo e suor para a preparação. A preparação que é difícil, aqueles infinitos treinos de tiro, os educativos, ter a disciplina para treinar ao invés de se divertir, seguir a risca a planilha e se doar por completo. Fazendo isso a prova é diversão, e se é diversão não há nenhum resultado que não seja satisfatório."


Carlos faz parte da JVM Trail Run, de José Virgínio de Morais, atleta The North Face e faz parte do Time Brasil que irá disputar o mundial de Ultra Trail este ano na Itália.

O Tiozinho, como é mais conhecido, tem algo pra dizer sobre Carlos:

"Carlos é um talento nato, um cara que gosta de treinar e buscar novos desafios a todo momento, está no lugar mais alto do pódio na Patagônia Run 125 km, já era algo esperado, pelo foco e pelos treinos que já vinha executando na preparação.

Ao contrário de muitos atletas Carlos gosta de treinar e competir pouco, deixando assim o meu trabalho, como Técnico, mais fácil de se planejar, com isso sempre que você vê Carlos em uma linha de largada pode ter certeza que ele estará nos seus 90% de condicionamento ou outros 10% ficam por conta de sua ambição de prova que quase sempre são as mais ousadas possíveis.

A escolha da prova partiu dele, eu somente orientei a distância mais viável para o momento, ao contrário que do que falou em uma entrevista onde o mesmo disse: Eu tive sorte para vencer, eu digo que ele teve sim muito empenho nos treinos.

Ele ainda é novo, tem cabeça boa, mas o tempo e as circunstancias de vida e do momento sempre podem influenciar em várias frentes para a manutenção do seu sucesso dentro do Trail Run.

Espero que o Trail Run tenha atletas como Carlos por muito tempo."


Conclusão sobre a prova:

"Essa prova teve um gosto muito especial para mim, não por que eu a venci. Mas por que para chegar lá passei por maus bocados. Iniciei o ano com pubalgia e fiquei um bom tempo em janeiro sem conseguir correr. Logo que consegui voltar a correr sofri um acidente de bike e novamente fiquei um tempo sem correr, aqui cabe um desabafo que poucos sabem. Nessa queda bati minha cabeça com tudo em um barranco ficando desacordado por um tempo, e fui ressuscitado por um amigo, e depois de acordado ainda tivemos que pedalar 30km!!! Nesse dia pela primeira vez, eu senti a morte ao meu lado pois ao deitar a noite, tinha absoluta certeza que não acordaria no outro dia. Mas acordei, me recuperei, e mais uma vez dei a volta por cima e pude enfim focar nessa prova.

Eu me considero um completo vencedor nessa prova, pois consegui ver meus três amigos se tornarem Maratonistas depois de tudo que passamos para chegar lá, e poder abraçar eles na chegada foi sem duvida o maior prêmio que já recebi em toda a vida. Emilly, Rodrigo e Fernanda, se eu consegui chegar ao lugar mais alto do pódio é sem duvida por que tenho vocês!"


A Go On Outdoor e todos do mundo do trail tem muito orgulho do que fez na Patagônia Run e temos certeza que este é somente o começo de uma bela história!

Conte conosco para fazer parte disso!

Go On!