E quando falta sangue?
Francisco Ottoni
11 de julho de 2017

Por: Francisco Ottoni


O sangue tem um papel fundamental na manutenção da vida e entre suas principais funções relacionadas com a atividade esportiva estão o transporte de gases (oxigêno e gás carbônico), nutrientes e metabólitos (substâncias que devem ser descartadas após as reações químicas) e regular a temperatura corporal.

O problema é que para cumprir essas funções existe uma quantidade limitada de sanque que varia de 7% a 8% do peso corporal do indivíduo. Em alguns sites é até possível calcular o volume a partir do seu peso, altura e sexo (http://www.prosangue.sp.gov.br/calculo/Default.aspx ).

Ocorre que quando corremos nosso organismo tem que distribuir essa commodity entre nossos órgãos vitais, os músculos empregados na atividade física que passam a demandar uma quantidade maior de oxigênio e nutrientes conforme o aumento da intensidade, para nossa pele que vai dissipar o calor produzido nos músculos exercitados e para nossos sistema digestivo, caso o altleta tenha ingerido algum alimento.

Nosso corpo então estabelece prioridades na hora de distribuir o sangue. Nossso órgãos vitáis são, óbvio, o primeiro destino. Nesse segmento não temos como interferir. Sempre haverá precedência para quem nos mantém vivos.

Em seguida vem os músculos exigidos na corrida. E conforme a intensidade da atividade aumenta, a quantidade de sanque desviado incrementa sacrificando a terceira demanda que é a utilização do sangue para resfriar o corpo, levando o calor produzido nos músculos para superfície da pele onde ele é dissipado para o meio ambiente.

Aí podem aparecer alguns fatores externos que dificultam essa transferência de calor. Altas temperaturas, alta humidade relativa do ar, sol e excesso de roupas são os mais comuns. Pelo contrário, tempo frio e seco, vento e pele exposta facilitam essa eliminação.

Caso o atleta mantenha um ritmo intenso na atividade e consequentemente continue gerando muito calor e esteja correndo em um ambiente desfavorável a sua dissipação, a temperatura interna dele subirá até um limite crítico (aproximadamente 41o.C, segundo Tim Noakes em Lore of Running) quando o cérebro  enviará sinais de fadiga. Ainda assim é possível que o atleta ignores esses  sinais e prossiga em uma intensidade que continue produzindo mais calor que o corpo seja capaz de eliminar. Nesse caso o atleta fatalmente entrará em colapso (hipertemia).

Alguns sintomas da hipertemia são transpiração intensa, respiração rápida, pulso fraco e rápido, secura da pele e dilatação dos vasos sanguíneos, numa tentativa de aumentar a perda de calor, desidratação intensa, náuseas, vômitos, dores de cabeça e pressão arterial baixa, desmaios ou tonturas. Eventualmente, pode ocorrer falência dos órgãos, inconsciência e morte. 

No caso das ultramaratonas, onde é comum a ingestão de alimentos em maiores quantidades e com maior frequência, aparece outro sistema para disputar seu sangue: o digestivo. Esse é o que tem menor precedencia e será o primeiro a ser sacrificado na disputa com os outros três que já falamos. Mas isso não quer dizer que ele é dispensável e pode ser negligenciado. Sem sangue seu estômago e intestinos não absorverão os líquidos e calorias essenciais a continuidade da sua prova e sem os quais você não irá até o final.

Como lidar com essa disputa interna por um elemento limitado? Com equilíbrio. Como não temos ingerência na quantidade de sangue necessária aos órgãos vitais e, até certo ponto, aos elementos da natureza que limitam a dissipassão do calor, concluimos que temos controle apenas em dois sistemas: a intensidade da atividade física e a quantidade de alimento ingerido.

Em situações climáticas desfavoráveis, reduza a intensidade do esforço físico e ajude a seu corpo a eliminar o calor excessivo se hidratando bem, usando roupas leves e colocando gelo na cabeça e no pescoço.

O ritmo também deverá ser reduzido após a ingestão de volumes maiores de alimentos e caso você sinta que seu estômago está acumulando líquidos e comida (aquela sensação de volume e movimento da barriga).

Por isso não deixe de treinar em situações climáticas adversas, além do seu organismo se adaptar e se tornar mais eficiente em esforços físicos sob altas temperaturas e humidade, apenas com experiência nessas condições você descobrirá seus limites e como equilibrar seu esforço de acordo com o momento que está passando durante a prova.