PORQUE NÃO CORRER A UTMB
Go On Outdoor
31 de janeiro de 2018

Por Leonardo de Freitas Leite


Para muitos corredores de montanha a UTMB é um sonho. Assim como a Maratona de Nova Iorque para os maratonistas, o Ironman do Havaí para os triatletas e o LÉtape para os ciclistas. Para outros a UTMB é apenas mais uma prova do calendário internacional de corridas de montanha que apresenta suas particularidades, entre elas percorrer as trilhas de três países (Franca, Itália e Suíça) durante a competição. Já para um outro grupo, onde me incluo, a UTMB é uma prova que definitivamente não está na lista de desejos dos corredores de montanha.

É sabido que as corridas de montanhas ganharam muito espaço nos últimos cinco anos e se espalharam por todo o mundo. Juntamente com essa demanda por parte dos milhares de corredores que aos poucos foram migrando do asfalto para as trilhas chegaram também as assessorias e as grandes marcas que hoje investem uma quantia significativa em atletas patrocinados e no desenvolvimento de novos produtos.

A UTMB sempre foi uma prova prestigiada pelos europeus e nos últimos anos passou a ser o desejo de uma grande maioria de corredores de todo o mundo, que querem estar lá no mês de agosto para correr uma de suas várias distancias. É claro que é preciso acumular os famosos pontos e depois ser sorteado.

Por diversas razões os corredores elegem essa prova. Alguns para estar perto da elite mundial, embora essa mesma elite esteja presente em outras competições, para ver e comprar produtos novos que são lançados nas feiras, assistir a uma coletiva de imprensa ou mesmo estar no meio de toda essa multidão falando de corrida e exibindo seus coletes de anos anteriores. E é claro, correr a prova que circunda o famoso Mont Blanc.

No meu caso, e acredito que não sou o único, as corridas de montanha têm um outro sentido. Quando comecei em 2009, quase não existiam provas aqui no Brasil e na América Latina. Saímos para correr em trilha apenas para nos divertir e apreciar as paisagens. Era uma galera que tinha suas origens mais no montanhismo do que na própria corrida de rua. Era preciso abrir os mapas do Google e conversar com as pessoas que faziam trekking para descobrir os percursos que hoje estão todos nos aplicativos. Não haviam treinadores especializados e quem sabia um pouco mais simplesmente transmitia para o outro e assim seguia o baile. Meu primeiro contato foi através do amigo Geoge Volpão que me deu as primeiras dicas e me passou um pouco do seu conhecimento como montanhista.

Comecei a competir em 2010 nas corridas de montanha e era um grupo pequeno, mas todos com um único propósito: cruzar a linha de chegada compartilhando experiências nas montanhas. Tudo muito simples. Uma estrutura básica na largada e chegada, e o foco da organização nos postos de hidratação e na segurança. Nada de kits especiais, medalhas sofisticadas, ou coletes de Finisher.

Aos poucos os corredores de rua foram chegando. Alguns deles porque faziam diferentes esportes ou porque também gostavam de trekking e queriam experimentar essa nova sensação de correr nas trilhas. Outros chegaram simplesmente porque era um novo desafio e porque também queriam mostrar que eram aventureiros. Nesse caminho muitas coisas aconteceram: boas e ruins. Os equipamentos que utilizávamos para correr eram adaptações do trekking e aos poucos foram chegando produtos especifico. Ainda tenho minha primeira mochila com bolso para garrafas frontais. E também vieram os oportunistas com provas mal organizadas e muita sujeira nas trilhas por parte de corredores de rua que sempre jogaram no chão o seu lixo durante as corridas no asfalto. Além dos trágicos acidentes e fatalidades que aconteceram por inexperiência.

Quando me dei conta, as corridas de montanha tinham mudado completamente e muitos dos que prezavam o simples, acabaram desanimando e ficando pelo caminho. A popularidade foi aumentando e com a UTMB não foi diferente.

Como já era uma prova famosa e reconhecida mundialmente, se tornou o crème de la crème dos corredores de montanha. Fascinados com o antes e o depois, milhares de corredores colocaram isso como meta e a cada ano a cidade de Chamonix fica tomada por corredores que desfilam nas ruas com seus trajes e equipamentos de última linha. Definitivamente a montanha fica de lado nessa hora.

Ainda pertencendo ao Old School, prefiro as poucas provas que ainda existem onde o foco está na corrida e no compartilhar experiências, e não no show pré e pós prova. Nesses eventos o público é pequeno mas sinto que todos estão alinhados com o mesmo propósito. É como chegar em uma cidade pitoresca e ir na padaria comprar uma guloseima. Rapidamente você percebe a diferença. Não vai encontrar uma grande variedade, mas seguramente será muito saboroso e preparado com demasiada atenção e carinho.

Acredito que existe público para tudo e não uma verdade absoluta sobre o que é melhor ou pior. Se trata apenas de uma opinião e de escolhas. Quando seleciono uma prova grande para fazer trato de buscar algo diferente ou que tenha um grande significado para mim e que seja um evento focado na corrida. Já terminei prova em que não existe medalha e sim uma bela cerveja para tomar. Alguns iriam reclamar pela medalha, já outros pediriam um caneco mais para continuar a conversa sentado no chão.

Mais e mais corredores chegarão e espero que mantenham sempre o respeito e o companheirismo pelo próximo, deixando de lado as vaidades, pois em uma corrida de montanha quando o tempo vira, apenas os próprios corredores poderão salvar a sua vida. E que sigam escolhendo as provas que melhor lhe acomoda.

Para mim a UTMB é só para ver alguns vídeos antigos de pessoas que eu realmente admiro. Aproveito para deixar aqui uma dica de um filme sensacional: Il Corridore, que conta a história de Marco Olmo, um corredor que simplesmente impressiona com sua humildade e com tamanha resistência ao vencer a UTMB em 2006 e 2007, aos 59 anos. 

Um abraço a todos!


Leonardo Leite - Corredor de montanha, amante da natureza e dos desafios ao ar livre. Desde criança sempre tive muito contato com as montanhas, desenvolvendo um espírito aventureiro e o prazer pela vida no campo.

As corridas em trilhas me possibilitaram estar mais em contato com a natureza, utilizando esses lugares como refúgio para reflexões e aprendizados. As aventuras tornaram-se um estilo de vida caracterizado pela simplicidade, cuidado e respeito ao nosso planeta.

Como atleta me especializei em corridas de longa distância (50 e 100 milhas) percorrendo montanhas e desertos em competições no Brasil e no exterior.