Riscos de beber água na montanha
Raïssa Zortea
13 de julho de 2017

Por: Raïssa Zortea


Esses dias recebi um artigo sobre descontaminação de água indicando pastilhas de cloro. Bom acredito que deste assunto eu pelo menos entenda uma vez que tenho mestrado em Engenheria Sanitária e sou Engenheira de uma Companhia de Saneamento, então gostaria de explicar algumas hipóteses.

Desinfetar uma água significa eliminar certas bactérias presentes na mesma. A desinfecção caseira é necessária quando se consome água de uma fonte sem tratamento. Tecnicamente aplica-se a simples desinfecção como meio de trata­mento para águas que apresentam boas características físicas e químicas a fim de garantir que ela não provoque doenças de origem bacteriológica.

É importante saber que os períodos de estiagem favorecem a estagnação da água de lagos e reservatório e o florescimento algal. Em contrapartida, os períodos chuvosos acarretam a ressuspensão do material sedimentado no fundo de lagos e rios e a consequente elevação das concentrações de partículas e, a elas associadas, de cistos de Giardia e de oocistos de Cryptosporidium. Neste contexto, o desempenho de alguns produtos de desinfecção, embora favoreça a remoção dos cistos de Giardia, nem sempre interferem bem aos oocistos de Cryptosporidium

Diarréias, febres, infecções gastrointestinais ocorrem geralmente pelo contato de veiculação hídrica com fezes humanas e de animais que carreiam essas partículas acima citadas entre outras que são biodispostas no meio. Muitas pessoas indicam pastilhas de cloro para desinfecção, mas é sempre bom ter cuidado. Saiba onde poder utiliza-las, pois, o cloro é apenas um desinfetante e dependendo ainda pode reagir com matéria orgânica e formar outros subprodutos (como clorofórmio: grande escala de cloro com grande escala de matéria orgânica).

Com quantidades excessivas de sedimento e/ou matérias orgânicas pode não haver desinfetante suficiente para eliminar a totalidade dos contaminantes, como bactérias, vírus, protozoários e helmintos. Toda a água a ser tratada deve ser clara. Pode-se filtrar a água através de um filtro de café, e às vezes é inclusive necessário para alguns contaminantes (como Cryptosporidium) ferver a água para eliminar parasitas/vírus. Quando estiver próximo de criações evitar inclusive qualquer tipo de ingestão de água.

Os ecossistemas das montanhas inclusive estão passando por uma rápida mutação, maior parte das áreas montanhosas do mundo estão experimentando degradação ambiental, uma vez que as montanhas são extremamente vulneráveis ao desequilíbrio ecológico. A erosão do solo, a falta de infiltração e falta de armazenamento de água, tudo isso vem sendo observado. É na montanha onde às águas nascem e por razão do turismo difuso, pisoteio de trilhas, bem como queimadas acidentais que vem destruindo com o abastecimento e recarga. O cuidado ao próximo é da mesma forma importante. As contaminações são de responsabilidade antropogênica nessas regiões.

Por exemplo, estudos indicaram que trazidos pela chuva, agrotóxicos contaminam os campos de altitude da Serra da Mantiqueira no Parque Nacional do Itatiaia. Cientistas da UFRJ descobriram contaminação por endosulfan, um pesticida altamente tóxico e proibido no país desde 2014, mas capaz de permanecer por décadas no ambiente.

-Fomos investigar nos topos das montanhas justamente porque essas áreas são sentinelas do ambiente. Tudo acontece primeiro lá. Os agrotóxicos chegam com a chuva e se concentram com o clima frio. Eles afetam o solo e as nascentes. No topo das montanhas, a contaminação é maior do que nas áreas mais baixas explica Meire (do Instituto de Biofísica da UFRJ).

(https://oglobo.globo.com/rio/chuva-de-veneno-ameaca-parques-nacionais-20046242)

Neste caso, poluentes químicos não causam doenças de forma direta, porém, eles proporcionam grandes danos à saúde a longo prazo, mesmo em níveis baixos de concentração. 

Mas então, como procedemos? Estamos competindo trailrunning no caso, e filtrar bem como ferver não é possível? Como podemos agir?

Indico então alguns pontos de coleta: evitem água em vales onde o caminhamento hídrico já percorreu muitos lugares, não sabemos por onde passou, às vezes está clara, mas por acaso na região há a criação de porcos entre outros animais. Procurem nascentes, topos de morros. Procurem água sempre corrente onde verifica-se oxigenação da mesma. Sempre próximo de vegetação, a mata ciliar é importantíssima. Observem cor, espuma, incidência de matéria orgânica. A turbidez da água (ela não estar clara) interfere no desempenho das pastilhas de cloro. E se, por acaso, há larga escala de matéria orgânica e mistura-se em larga escala com cloro, formam-se os subprodutos como o clorofórmio. Portanto às vezes não é solução misturar diversas cápsulas de pastilha de cloro acreditando ser um melhor tratamento.

É importante salientar que desinfecção de água exige a inativação completa dos patogênicos, assim o tempo de exposição indicado pelas pastilhas é importante. Ao requer uma hora, ou 10 minutos dependendo do produto adquirido, obedeçam ao tempo indicado até o consumo.  Se houver dúvidas, então abasteça-se onde há mais confiabilidade.

Hidratar-se também é de extrema importância!