Ultra Running e Depressão.
Raïssa Zortea
21 de novembro de 2017

Por: Raïssa Zortea


Falar de depressão é ainda muito polêmico e raramente comentado. Talvez seja uma doença ainda incompreensível. Mas por que a depressão ainda é tabu?

A depressão é uma condição médica grave que muitas vezes não é reconhecida e tratada. É algo que as pessoas de todas as áreas da vida sucumbem, causada muitas vezes por um desequilíbrio químico no cérebro ou pelo ambiente com alguma combinação desagradável. Porém, o exercício aeróbio pode ser uma atividade efetiva para reduzir e administrar os seus sintomas.

Ainda assim, existem muitos atletas de endurance que já abriram o jogo falando sobre tal fator, e eu sou mais uma desta lista. Iniciei a corrida como modo de escape aos 16 anos. E é incrível falar, mas eu já corro para desopilar há tanto tempo que mal percebo como os anos passaram! Aprendi seguindo algumas fases.

- Aceitação

A fim de curar a depressão, o primeiro passo está na aceitação. A pessoa que está doente precisa criar forças para realizar novas atividades que tirem o foco de seus pensamentos do desânimo e da tristeza que parecem tomá-la por inteiro.

- Aprender a escutar o corpo e a mente.

Dentre essas mudanças, a inserção de atividades físicas é significativa. Além de proporcionar saúde ao organismo, proporciona também bem-estar e motivação.

Estudos mostram que a atividade física pode desencadear a formação de novos neurônios no cérebro, trazendo renovação das células e melhor desenvolvimento psíquico.

- Nossa mente: pior inimigo, melhor parceiro.

Então você trabalha o corpo, a mente descansa. Nos melhores momentos da nossa corrida, podemos entrar no estado de fluxo, estado emocional positivo caracterizado por termos uma atenção total na atividade que estamos realizando, na qual nada mais importa, mantendo um grau de concentração absoluta. Assim, neste estado, parece que temos o controle sobre o nosso destino, sentindo uma grande satisfação, já que a experiência é, por si só, prazerosa. Nossa autoconsciência diminui e entramos em equilíbrio com nosso desafio. Ao atingir o fluxo, podemos ir além e sempre, o problema é nos mantermos neste estado. Após alguns percalços, do contrário, podemos entrar no estado, então, contrário a ele. Ocorrendo a intrusão inesperada e angustiante de alguns pensamentos/sentimentos negativos e perturbadores.

Para isso, pode ser muito útil pensarmos na metáfora de nós mesmos como um motorista de um carro**. É extremamente importante para a nossa saúde e bem-estar que consigamos nos focar na condução da nossa vida na direção certa. O caminho certo é determinado pelos nossos valores, por aquilo que realmente importa para nós. Os nossos valores são a bússola de orientação que precisamos para nos guiar. Siga aquilo que quer, mesmo que por vezes esteja pensando e sentindo de forma oposta. Oriente-se pela sua consciência. Sempre que os seus pensamentos e sentimentos não estejam em concordância, analise-os. Portamos, juntamente ao dirigir, passageiros, muitas vezes incontroláveis. Os passageiros são os nossos pensamentos e sentimentos. Às vezes eles podem ser um incômodo, mas muitas vezes servem de melhor estratégia. Alguns dos passageiros que todos nós temos, por vezes nas nossas mentes, são ansiedademedodepressão, raiva e preocupação. A nossa tarefa é escutar o ruído da mente e deixar fluir. Portanto, a nossa tarefa é perceber que o ruído mental (pensamentos e sentimentos negativos) são uma parte normal da condição humana. Esses pensamentos e sentimentos são os passageiros desordeiros, pejorativos e com diferentes percepções do caminho a tomar. Mesmo com esse barulho atrás de nós, devemos seguir o roteiro, pelos percursos que conscientemente traçamos. Devemos focar a nossa atenção plena no que importa, ou seja, nos nossos valores e nas tarefas que nos propusemos. Embora a melhor estratégia geralmente seja simplesmente ignorar as mensagens dos passageiros e continuar fazendo a condução, às vezes pode ser útil ouvir e responder à mensagem.

** Por Miguel Lucas em Psicologia Positiva


- O que passa pela minha mente durante tantas horas e tantos quilômetros.

Quem não se questiona do por que estou fazendo isso (de novo)? Passam-se horas, onde encaramos todas situações possíveis. Nesta minha última prova (CCC), passei por todas sensações térmicas possíveis, desde o calor ao frio extremo (com chuva), junto tive uma crise de estresse intenso. No La Mision respirei cinzas vulcânicas e administrei de maneira errada a minha hidratação. No Half Mision delirei. E sempre que concluo eu penso que jamais repetirei. Então vem a sensação de superação, de que atingi o meu melhor, e volta a vontade de poder fazer melhor ainda. Pois, no fim é sempre história para contar, e não há nada que substitua experiências de vida.

- Dificil relação com cansaço pós-endurance.

É a condição de síndrome pós prova. O sentimento de "estar para baixo" tende a acontecer aos atletas depois de completarem uma grande competição. Também pode ocorrer a um atleta excessivamente cansado. Ocorre também em atletas que buscam neuroticamente por uma competição contínua de alto nível ou grande volume.

Os esportes de resistência, como a maratona, o triathlon, o ciclismo e o ultra trail, tendem a atrair personalidades de tipo A. Estas tendem a ser orientadas para altos objetivos, competitivas, empreendedoras. Embora nem todos, que façam esses esportes, encaixam-se nessa personalidade, muitos ainda possuem algumas tendências deste tipo. Assim, completam o objetivo em uma grande competição, e depois de aproveitarem da glória, já sentem a compulsão de encontrar outro objetivo desafiador para se testar novamente, para encontrar mais validação. Isso acontece mesmo com muitos eventos de vida não-esportiva, como se formar na faculdade, ter um filho ou passar em um concurso. Embora não seja inteiramente saudável buscar outro objetivo, é problemático quando não se tem tempo suficiente para a recuperação.

Outro aspecto que leva a um sentimento de depressão após uma corrida é a grande quantidade de tempo livre que se tem enquanto se recupera. Parece ridículo pensar que qualquer pessoa que estivesse gastando 10 ou mais horas treinando a cada semana seria estressada por ter mais tempo livre disponível. Todo atleta acha que eles estarão tão felizes em se divertir por algumas semanas. No entanto, a realidade é que nos aborrecemos. Os atletas de resistência costumam estar em movimento e de repente eles estão sentados.

A presença de dopamina aumenta a sensação de motivação. Quando a dopamina sai do sistema, como quando a atividade de resistência acabou, esta nos traz uma sensação de humor deprimido. Outro ângulo é que o corpo anseia a sensação de euforia e motivação associada à presença de dopamina; então, quando esse sentimento desaparece, o corpo busca novamente a atividade para liberar a dopamina.

- Aceitando maior risco e saindo da minha zona de conforto.

A mágica só acontece de verdade, quando saímos de nossa zona de conforto. Exige coragem e determinação, pois é significado de mudança. Vai doer, vai ter sacrifício, vai ter dedicação, mas o retorno nos completa. Lembre-se que o contato com as trilhas modifica nossa rotina, nos transportam para outros lugares, onde a natureza nos equilibra por completo. Portanto, às vezes sair da zona de conforto e aceitar o risco também pode significar uma melhor condição de vida, onde o tempo acaba nos levando ao crescimento e descoberta. E não se esqueça de que o seu maior concorrente é você mesmo.


Depressão e ultrarunning - parceiros de longa jornada?

  • Eficácia: muitos estudos e experiências pessoais mostram que funciona se exercitar (mesmo em termos de modalidades menores)
  • Ação rápida e pode ser combinada com outras terapias
  • Os efeitos colaterais são realmente bons
  • Observe que o exercício não substitui os cuidados médicos, e deve ser combinado com o mesmo.
  • Mecanismo de enfrentamento saudável
  • Pode ser social ou feito sozinho
  • Pode ajudar com o sono
  • Ajuda com habilidades de gerenciamento de tempo / acrescenta estrutura ao seu dia
  • Incentiva vínculos em grupos
  • Muitas vezes, encontramos outras pessoas com histórias semelhantes
  • Grande proporção de tempo gasto para fitness obtido
  • Exploração / beleza / viagem

Defina metas realistas e realizáveis.

  • Explore uma nova trilha uma vez por mês
  • Vá para as corridas para encontrar os amigos, ou para conhecer (já possuo um network com outras partes do Brasil e fora inclusive, apenas por ter conhecido em diferentes eventos).
  • Reconhecer a mudança dos níveis de motivação com as mudanças de humor