Uma experiência Sky
Go On Outdoor
08 de novembro de 2017

Por Rodrigo João


O que falar de uma experiência onde você você percorre apenas 1.8 km, mas sobe intermináveis 1000m? Tudo remonta para esta experiência incrível que tive no Verticale du Grand Serre, o menor Km vertical do circuito mundial que acontece na cidade de Cholonge no sul da frança. Circuito mundial? Sim esta modalidade conta com um circuito composto de  17 etapas ( http://www.vkworldcircuit.com/races-2/) que ocorrem entre maio e outubro.

Como estávamos em Barcelona 1 semana antes correndo a Ultra Pirineu, descobrimos esta prova e montamos uma logística para estar em Cholonge no dia 01 de outubro. Ficamos hospedados em Grenoble a 30 minutos de carro. No dia da prova saímos cedo e antes das 9 hs da manhã estávamos chegando em Cholonge. A estrutura da prova, bem simples, se localizava em um terreno ao lado da igreja da cidade. Lá tinham alguns estandes de patrocinadores e uma grande tenda para retirada do número de peito ( isto mesmo o kit se resume a um número de peito e brinde dos patrocinadores e custa 20 euros) e para o almoço pós prova e confraternização ( sim, todos os atletas tem direito a uma refeição após todo esforço). Fomos direto retirar o numeral e logo ali nos deparamos com o Atma Singh, figura lendária das corridas de montanha e representante da marca de chás Atma bio. Conversamos um pouco, falei que havia feito a Ultra Pirineu uma semana antes, ele nos serviu um chá maravilhoso e nos mostrou uma lista com os favoritos da prova. Como aquele chá caiu bem, já que a temperatura estava baixíssima.

Terminada esta fase inicial fomos para o carro, ligamos o aquecedor e fizemos os últimos ajustes no material. Nas provas de Km Vertical é comum os atletas largarem 1 a 1 com um intervalo fixo de tempo. Nesta prova os atletas saíam a cada 20 segundos e os 50 atletas de elite a cada 1 minuto. Primeiro saem os atletas que colocam uma estimativa de tempo mais alta para fazer o percurso e por último sai o atleta com melhor tempo comprovado entre todos inscritos. No nosso caso, largaria minha esposa Nadjala, depois eu e por último nosso amigo Marcilei, veterano dos Vks.

Um pouco antes da largada da minha esposa fomos em direção ao pórtico. E ele ficava no meio de uma pirambeira que deveríamos chegar a pé. Fomos caminhando uns 5 minutos até a posição de largada. Lá, nosso amigo Atma Singh anunciava um a um e aqueles que tinham colocado algum currículo na inscrição tinham o mesmo lido em voz alta. Após a largada da Nadjala, faltavam cerca de 10 minutos para minha. Procurei me aquecer, mas a própria adrenalina ajudava. Não conseguia ficar parado.

Chegada minha hora, fui para o local de partida, já estava quicando querendo largar. Um Staff colocava sua mão em meu peito para que só largasse após o final da regressiva em um relógio que ficava ao nosso lado. Atma Singh me apresenta: Do Brasil, fez a Ultra Pirineu semana passada!! A galera vibrou e já entoou um ALLEZ!!ALLEZ!! 3,2,1 , finalmente me soltam e parto em um trote maroto e com o apoio dos essenciais gravetos.  Meu amigo Marcilei largou cerca de 10 minutos depois de mim.

Vou percebendo que a inclinação é absurda. Começo a fazer muita força com os bastões e me proponho a não parar. Dou uma rápida olhada para o lado e vejo outro atleta, sem bastão, vindo com as mãos no solo, isto mesmo, parecendo um tigre e me passa como um raio. Resolvo apertar o ritmo e assim vamos. Estava chuviscando e o frio era absurdo. Entramos em uma floresta. O terreno em quase sua totalidade era de grama e com a chuva estava um barro só. A progressão era complicada. No meio do percurso um grande pórtico com 2 relógios: 1 indicando o tempo do melhor atleta até aquele momento e o outro marcando seu tempo.  Continuava fazendo força e alguns metros depois atravessamos as nuvens e um lindo céu azul se abriu na nossa frente. Olhei para o horizonte e um verdadeiro paredão se apresentou. Resolvi não mais olhar e só fazer força. Fui evoluindo. Em alguns trechos a inclinação superava os 70 %. Quase no final as pernas ficaram pesadas. O esforço é tão brutal que em alguns pontos de zigue-zague fica um staff, pois ficamos meio desorientados. Na reta final ainda busquei as últimas forças e ultrapassando a linha final desabei. Ao meu lado outro atleta também desabou e fez um sinal de jóia para mim. No alto da montanha um estrutura simples, mas muito eficiente: comida e bebida a vontade. Um local com uma bolsa de cada atleta contendo roupas secas que entregamos antes da largada. E o principal: uma paisagem de tirar o fôlego. Um lindo mar de nuvens abaixo de nossos pés.

Logo depois chegaram minha esposa e meu amigo. Ficamos quase uma hora apreciando a paisagem, tirando fotos e vendo a chegada de outros atletas. Uma em especial atraiu a atenção e admiração de todos: o atleta Moreno Pesce, amputado de uma das pernas e que participa de todo circuito mundial de Km vertical. Inspiração para todos nós.

Começou a esfriar e o tempo a fechar um pouco. Resolvemos descer. Como? Não existe outro meio a não ser com suas próprias pernas. Existe uma trilha alternativa, menos vertical e com cerca de 4 km. Entretanto tal caminho é composto de muita pedra e no final ficava muito inclinada e escorregadia. Ainda mais que em uma das mãos levávamos nossas bolsas com as roupas que havíamos trocado. Algumas quedas e um bom tempo depois estávamos de volta no carro. Largamos as bolsas e fomos para confraternização.

A confraternização é muito bacana. Moradores montam barracas com diversos alimentos típicos para venda e temos a refeição da organização que foi pizza, pão, salame, cenoura com um molho delicioso, refrigerante e frutas.  Ao final ocorreu a cerimonia de premiação onde os melhores atletas foram agraciados.

De toda esta maravilhosa experiência, percebi que é um tipo de prova com estrutura muito simples, mas muito eficiente, onde todos envolvidos, atletas e staffs, amam o que fazem. Isto faz toda diferença. Me apaixonei por este tipo de prova. Fui apresentado ao mundo Sky e dele não quero mais descer. São provas que te desafiam e te levam ao extremo. Ano que vem, se Deus quiser tem mais!!!