Viajar para Correr (Parte II) Trilhar na cultura
Emílio Sant'Ana
06 de dezembro de 2017

Por: Emílio Sant'ana


Pessoalmente um dos maiores baratos que viajar para correr me proporciona é romper com o meu ritmo de vida e sintonizar na frequência do lugar que escolhi; e o ambiente remoto é uma fonte riquíssima em novas freqüências: a cidade do interior, o vilarejo de roça ou a praia deserta. 

Lá me encontro seja nas reminiscências da infância que reafloram à memória ou no cruzar histórias e momentos pessoais que vivi ou busco viver, um mixto de contemplação e inspiração. Inculturar-se é a maneira mais suave e proveitosa: colocar-me no lugar do outro, abaixar a guarda tecnológica, perceber ritmos que deixei, expressões de linguagem, enfim, enriquecer-me de novas experiências.
Na maioria das situações acredito que o "homo-urbanus" pode ceder, mesmo que temporariamente, ao jeito "jeca" de ser:
  • Aceitar a escassez de treino tecnologia: o sinal da TV será precário, a variedade de canais idem (eu mesmo nem ligo e até libero a tomada para outro utensílio);
  • Internet às vezes também não tem, nem sinal de telefone; já cansei de subir dunas ou morros para caçar um sinal de 1 pauzinho pra falar com a filha ou falar com a namorada por SMS; muitas vezes a serventia do celular é mesmo para fotografar;
  • Deixar um pouco de lado a qualidade total e seus derivados: esperar 5 minutos por um bom dia na padaria, pagamento apenas em dinheiro, cardápios precários...  releve e resolva tudo na conversa; não há preocupação em qualidade de atendimento porque na mentalidade não urbana não há servidores e servidos, então encaixe-se no nível dos locais;
  • não tente convencer um ex-urbano a reconverter-se: ele já está de cabeça feita! São os tipos que mais me chamam atenção, saber os rompimentos, as reconstruções mentais, as motivações, os primeiros passos... um dia talvez eu passe por isso...
  • releve a imprecisão das informações, lá informações tem caráter subjetivo: tempo, distância, caminho a tomar; converse com o máximo de gente, instigue a conversa fluída... faça a média do arrecadado e com sorte vai descobrir fontes valiosas;
  • não se afobe, se você quiser fazer todas as trilhas ou ver todas as cachoeiras do seu roteiro, vai perder um tesouro que provavelmente não trafega no mainstream: mantenha o programa aberto e a disposição para uma outra visita semanas após para completar possibilidades.
  • finalmente, forasteiros levantam curiosidade, mas nunca conte mais causos e estórias que o morador local nem recuse uma gentileza! 

Sigamos nessa trilha como aprendizes generosos e ávidos por retornar de malas cheias de novas experiências! UP!